Como tomar decisões difíceis e rápidas em tempo de crise

Por Cyrille Schneider
CBS Partners

Já se deparou com uma situação em que teve que tomar uma decisão difícil e de forma muito rápida?

Imagina receber a notícia que te restam apenas 60 dias de vida, o que faria?

Esta história começa em dezembro de 2012. Eu era diretor geral da filial brasileira de uma multinacional francesa de software.

Tinha planejado com a família viajar de férias para Natal, em Rondônia, onde temos uma linda casa à beira do rio Mamoré.

As passagens áreas de toda família estavam compradas para voar dia 16 de dezembro às 1h da tarde.

Um carro alugado nos esperava no aeroporto de Porto Velho.

Durante toda semana anterior comecei a sentir fortes dores nas costas.

Como sou um pouco workaholic, pensei que eram dores musculares por causa da má postura diante do computador e pelas jornadas de 12 a 14h que fazia para deixar tudo redondo na empresa para viajar tranquilo por duas semanas.

Minha esposa Clarice, a cada reclamação minha sobre minha dor de costa, me repetia: “vai ao médico, vai viajar assim?”.

Eu respondia: “imagino se tenho tempo para isso agora. Se não terminar o que tenho para fazer, ninguém viaja.”

Dia 15 de dezembro, véspera de viajar, terminei o que tinha para fazer no escritório. Cheguei em casa às 9h da noite, todas as malas estavam prontas e as crianças já estavam dormindo.

A dor nas costa começou a vir para o lado esquerdo e a ficar insuportável, mesmo com todos os analgésicos tomados durante toda semana.

Falei então para Clarice: “vou ao pronto socorro, para pegar uma receita médica e comprar os remédios que precisar na volta, então os tomo na viagem.”

Às 11h da noite cheguei ao pronto socorro.

Fui rapidamente atendido pelo médico de plantão que já me anuncia de pronto: “isso não é uma dor nas costa, é uma dor renal”.

Você toma água durante o dia?”. Respondo para ele: “ah, doutor, tomo mais café do que água.”

Então, ele me fala: “Deve ser provavelmente pedras nos rins, vamos fazer uma ultrassonografia para ver o que temos aí.”

Lá vou eu para ultrassonografia.

Quando o resultado chega, o médico me diz: “estranho, não tem pedras não rins. Eles estão limpos, mas com certeza tem algo aí. Vamos fazer uma tomografia.”

La vou eu fazer a tomografia.

Ao chegar o resultado, o médico me diz: “de novo, não vejo nada nos rins, mas tem uma coisa estranha aí: seu rim esquerdo tem o dobro do tamanho do rim direito. Vamos fazer uma nova tomografia, agora com contraste.”

Volto então fazer a tomografia com contraste.

Ao chegar o resultado, o médico me anuncia: “você tem uma trombose na veia renal esquerda. A veia está entupida e o sangue não consegue sair do rim para ir ao coração. Vou te internar, vamos ter que investigar isso.”

Quando ele me disse isso, às 5h da manhã, já estava exausto, louco para ir embora com minha receita para viajar.

Então eu respondo: “Está brincando? Tenho um vôo às 13h em Congonhas. Me dá qualquer coisa para poder viajar, na minha volta vejo isso.”

Ele me olha indignado e me responde bravo: “Não tem ninguém brincando aqui! Se o senhor quiser sair deste pronto socorro, terá que assinar um termo de descarga de responsabilidade, pois eu não vou lhe dou alta. E deixe-me dizer de forma muito clara: se entrar naquele avião, tem duas coisas que podem lhe acontecer: a primeira, o senhor perder seu rim esquerdo, ou a segunda, ele estoura durante o vôo, o senhor tem uma hemorragia interna e, provavelmente, irá sair em um saco preto daquele avião. O que o senhor escolhe fazer?”

Com isso, não pensei muito, baixei a cabeça, peguei meu celular, liguei em casa e disse para Clarice que podia cancelar tudo, pois teria que ficar internado.

Logo em seguida, o médico volta e me fala: “para ter mais detalhes da trombose, vamos fazer uma ressonância magnética.”

Faço então mais esta ressonância magnética.

Ao chegar o resultado, o médico me anuncia: “a trombose foi ocasionada por uma massa de 6,7 cm que pressiona a veia, e assim a entope. Essa massa tem 90% de chance de ser um tumor de origem cancerígeno. Vamos precisar fazer uma biopsia para confirmar. Só que temos um problema: esse tumor está num lugar de muito difícil acesso e perto demais da sua coluna vertebral para que a biopsia seja feita manualmente, por isso terá que ser feito por tomografia computadorizada. Vamos te transferir de hospital, pois nosso equipamento aqui está em manutenção e não podemos esperar.”

Depois de escutar atento tudo isso, respondi para ele: “Você está me dizendo que estou com câncer, é isso?”

Ele respondeu: “Só a biopsia para dizer se é benigno ou maligno, e avaliar que tipo de câncer é, mas tem grande chance que sim.”

Falei então: “Nunca fiquei doente na minha vida e está me dizendo que estou com câncer?” Ele respondeu: “Acontece”.

Fui então transferido para um outro hospital onde fiz a biopsia.

Ao chegar o resultado, o médico me diz: “Cyrille, você está com câncer do testículo. Deixa-me te explicar o que é isso. O testículo começa a produzir células cancerígenas malignas e as espalhas pelo seu corpo por meio do sangue. É um câncer bem conhecido e tem alta taxa de cura, então fica tranquilo. Vamos ter que fazer um exame chamado Pet-Scan com um contraste radioativo para avaliar a extensão do câncer. Ests exame revela onde tem tumores, conseguimos medi-los e, assim, estabelecer o protocolo necessário para sua cura.”

A notícia me assustou, porque nunca pensei que aquilo aconteceria comigo, mas continuei sereno e calmo, e disse: “tá bom, vamos fazer o que tiver de ser feito.”

Ao chegar o resultado do Pet-Scan, eis a cena:

Estou na frente de um oncologista junto com Clarice.

O médico está com uma postura severa e sua preocupação está estampada na sua cara.

Ele está em sua mesa olhando para tela do computador onde ele manipula um programa de medição e prognóstico especializado em câncer.

De repente ele se vira para nós, me olha nos olhos e diz: “Cyrille, a situação está mais grave de que esperávamos. Identificamos 30 tumores entre seu pescoço e sua cintura. O maior tem 6,7 cm, aquele que criou a trombose, e o menor tem 1 milímetro. Você tem 10 tumores em cada pulmão e os outros espelhados no seu abdômen. O mais grave é que o crescimento celular das metástases é muito acelerado. Em média cada tumor tende a crescer 1 cm por dia.”

Neste momento ele volta a olhar a tela do computador, e diz: “pelo cálculo do software, você tem 60 dias de vida, sendo uns 30 dias de consciência e 30 dias de coma, para depois morrer de insuficiência respiratória. O grau de agressividade é medido de 1 a 4, o seu é 4.”

Pensei comigo: “nunca foi primeiro da classe, mas desta vez, Cyrille, você conseguiu se superar, tirando a nota máxima!”.

Com esse diagnostico na minha frente, olhei para minha esposa e ficamos nos olhando em silêncio, uns 2 minutos.

Vi nos olhos dela que o desespero estava aumentando.

Então me virei para o médico e disse: “Não senhor, eu terei ainda 50 anos de vida!”.

Podia ter chutado 60 anos, mas pensando bem, para quem tinha um prazo de validade de 34 anos, se chegar aos 84 anos já está bom!

De volta, o médico olhou para tela do computador, fez uns cálculos e me diz: “OK! Você quer viver? Então você precisa começar a quimio amanhã. Deixa-me te explicar melhor: amanhã, não quer dizer semana que vem, ou depois vamos ver para agendar. Hoje à noite você terá que passar por uma cirurgia de retirada do testículo esquerdo que é a fonte do câncer, ao mesmo tempo eles vão te implantar no peito um portocath que é uma caixinha de silicone com um catéter conectado na sua artéria direta no coração e amanhã à tarde já vou receitar a primeira aplicação de quimio. A partir de agora, cada dia conta.”

Então ele continua: “outra coisa, Cyrille. Nos próximos dias, qualquer coisa que o hospital te pedir para assinar, você assina, simplesmente não pensa. Não podemos perder tempo com burocracia.”

Olhando para tela novamente, ele me explica: “baseado nos cálculos aqui, estou te receitando 8 protocolos de quimio. Cada protocolo terá 14 aplicações, e cada aplicação terá entre 3 a 4 bolsas de drogas de 800 ml em média. Para eliminar todos os tumores somente com quimio, a previsão feita é que seu tratamento deve durar uns 2 anos. Nesses dois anos, sua única meta deve ser: se manter vivo. Portanto, já pode esquecer o trabalho, seus lazeres, sua família, ou qualquer outra coisa que tenha vontade de fazer. Para te manter vivo, vamos precisar de 100% de foco no seu tratamento. Está preparado?”

Novamente, pensei 2 minutos olhando para Clarice e respondi: “Não Senhor, não vai durar 2 anos, vou acabar com isso no máximo o ano que vem!”

Então, saí para meu quarto com Clarice para me preparar para operação da noite.

Em alguns dias, passei de um executivo bem sucedido que se preparava para viajar de férias em família no Natal, para um doente terminal com uma sentença de morte declarada.

E você como reagiria a uma situação como essa?

Em graus diferentes, a vida nos coloca frente a situações em que é preciso tomar uma decisão rápida, apesar da dificuldade que isto pode ser.

A verdade é que ninguém está preparado para isso.

Esse tipo de situação sempre acontece com os outros, mas nunca pensamos que poderíamos viver isso na pele.

Nesse caso só existem duas opções diante de você.

Ou aceita a fatalidade e aceita morte como seu destino de curto prazo e se prepara para isto.

Ou se recusa a se entregar para fatalidade e decide lutar e enfrentar todo a situação, independentemente de qualquer coisa.

Eu escolhi lutar e assumir que por meio desta experiência poderia viver oportunidades que nunca teria tido condições de viver.

Escolhi viver, sem saber quanto tempo, e que faria o que tivesse que ser feito para continuar em pé.

Provavelmente você já teve, na sua vida, decisões difíceis para tomar, e talvez tenha, neste momento, decisões complicadas para tomar.

Então vamos lá, seguem 5 dicas que pode pôr em prática desde já:

1-Defina o que você quer.

Sei que nem sempre é fácil saber o que se quer, principalmente quando estamos sob forte estresse.

Mas, justamente neste momento, é fundamental que você assuma o seu destino.

Não deixe os outros decidirem por você, eles não estão no seu lugar, por mais íntimos e próximos que podem estar de você.

Talvez precise de tempo para isso, mas não se esqueça que num momento de caos a melhor estratégia é a ação e não o planejamento.

Por isso não pense muito, escute seu coração e tome a decisão.

2-Verbalize e diga com toda sua energia o que assumiu fazer para seu entorno.

Peça para eles respeitarem sua decisão e então você contará com o apoio deles e não as suas críticas.

3-Faça o que tiver que fazer para realizar o que escolheu.

Não se preocupe com burocracia ou muito processos.

O mais importante é avançar rumo a sua meta.

Pense que cada dia e cada passo que tiver feito na direção certa é uma vitória e um conquista que precisa ser comemorada.

4-Motive o seu entorno pelo seu exemplo de força e coragem, pois é comum que as pessoas ao se redor fiquem mais abaladas do que você mesmo.

Você precisa deles pois, como diz o ditado: juntos seremos mais fortes.

5-Não seja arrogante e busque ser humilde, neste momento qualquer ajuda deles será bem-vinda.

Esteja atento às oportunidades e não hesite em pedir ajuda.

Deixe a vergonha de lado.

O que achou destas dicas?